28/05/2026
ISTO DEVIA ABRIR TELEJORNAIS ...
VOLTA ... Ecologia ou negócio privado disfarçado?
O chamado “Programa Volta” está a ser apresentado como uma grande vitória ambiental. Mas quando se olha para quem manda realmente no sistema, percebe-se rapidamente que isto tem muito mais de engenharia financeira do que de ecologia.
A entidade que gere o sistema chama-se SDR Portugal. E atenção a este detalhe: não é um organismo público. É uma associação privada.
O presidente da organização é Leonardo Mathias, antigo Secretário de Estado da Economia e diplomata. Mas o verdadeiro poder está em quem fundou e financia o sistema: a Circular Drinks e a SDRetalhistas.
E quem está por trás dessas estruturas? Precisamente os gigantes das bebidas e os maiores grupos de distribuição do país. Estamos a falar de empresas ligadas à Coca-Cola, Super Bock, Central de Cervejas, Sumol+Compal e aos grupos donos do Continente, Pingo Doce, Lidl, Auchan, Mercadona, Aldi e Intermarché.
Ou seja: as mesmas multinacionais que inundam o mercado com plástico descartável passaram agora a controlar o sistema que cobra mais 10 cêntimos ao consumidor em nome da “sustentabilidade”.
A União Europeia obrigou os países a aumentar drasticamente a recolha de garrafas plásticas até 2029 através do princípio do “poluidor-pagador”. Em teoria, quem coloca plástico no mercado devia assumir os custos ambientais da recolha e tratamento.
Mas em Portugal aconteceu algo muito curioso: em vez de criar um sistema público e independente que obrigasse os produtores a suportar diretamente os custos da poluição que geram, foi permitido aos próprios poluidores criarem e gerirem um sistema privado onde o consumidor paga adiantado e faz o trabalho logístico.
Compramos a bebida.
Pagamos depósito.
Guardamos lixo em casa.
Transportamos embalagens.
Esperamos por máquinas.
E ainda corremos o risco de perder o dinheiro.
Porque aqui entra a parte mais interessante do negócio : Se a garrafa ficar amassada, se o código de barras não for aceite, se a máquina estiver avariada, ou simplesmente se a pessoa não tiver tempo para ir devolver embalagens, os 10 cêntimos ficam retidos no próprio sistema.
Não vão para o Estado.
Não vão diretamente para um fundo ambiental público.
Ficam dentro da estrutura privada criada e controlada pelas próprias marcas e grandes superfícies.
Chamam-lhe financiamento do sistema. Na prática, milhões de euros poderão ficar presos todos os anos graças ao esquecimento, desgaste ou impossibilidade das pessoas devolverem embalagens.
E tudo isto enquanto falamos de multinacionais com lucros anuais absolutamente astronómicos. Mesmo assim, conseguiram criar um modelo onde parte do esforço financeiro e logístico passa diretamente para as famílias.
E há outra pergunta que quase ninguém faz:
Se o objetivo fosse realmente ecológico, porque é que o foco continua quase exclusivamente na reciclagem de plástico e latas em vez de apostar fortemente na reutilização de vidro?
Todos nós conhecemos o sistema antigo das cervejas e águas reutilizáveis nos cafés: recolher, lavar, esterilizar e voltar a usar. Décadas a funcionar. Mas reutilizar obriga as multinacionais a alterar linhas de produção, logística e margens de lucro.
Reciclar plástico mantém o ciclo do descartável vivo.
A reciclagem mecânica continua a gastar enormes quantidades de água e energia enquanto se produz mais plástico novo. No fundo, venderam-nos isto como uma revolução ecológica.
Mas o que muita gente vê é outra coisa: os maiores produtores de plástico passaram a controlar o sistema que lucra com a gestão do próprio problema que criaram.
A raposa ficou oficialmente a guardar o galinheiro.